jan
5
Lidando com gente infeliz

Uma vez me disseram que os erros alheios talvez fossem meus se eu estivesse em tais circunstâncias e, sem pensar muito, concordei. Outra vez me disseram que o coração humano tem suas tristezas profundas que o mundo desconhece e geralmente chamamos de insuportável uma pessoa apenas triste, o que também é verdade. Acontece que quando estamos bem, quando o mundo é colorido e a convivência com nós mesmos é algo extremamente agradável, nós sentimos uma certa dificuldade de compreender por que algumas pessoas enxergam a vida cinza e sentem-se agoniadas por serem quem são. E, bem como não é fácil olhar para baixo mantendo a postura, não é fácil olhar para cima sem sentir tontura. É assim que vejo as pessoas infelizes, pessoas essas que costumamos odiar por não saber exatamente o que se passa com elas: são seres desnorteados, que buscam conforto na sombra dos felizes, que muitas vezes gritam por dentro sem saber como exteriorizar os berros unidos a um pedido de ajuda. Nós os odiamos porque sua presença incomoda, mas não devíamos.

Há alguns anos conheci uma pessoa bastante desagradável, uma mulher já de meia idade que tinha acabado de ser largada pelo (ex)marido, frustrada profissionalmente, envolta em conflitos com a família e praticamente sem amigos. As únicas coisas que ela realmente tinha na vida eram três gatos, alguns móveis velhos e um monte de dívidas. Confesso, sua energia me causava arrepios e procurei me manter afastada por algum tempo, mas ela via em mim um pilar onde se apoiar e, conforme ela tentava maior proximidade, percebi que era muito egoísmo da minha parte ignorá-la. Respirei fundo muitas vezes, suportei seus telefonemas noturnos e plenos de pranto, suas lamentações por não ter quem a amasse, fingi acreditar em cada uma das mentiras que ela inventava para si mesma na intenção de viver a vida que gostaria de ter tido. Fiz tudo isso até o dia em que falei que ela estava doente, que precisava de ajuda profissional e que, apesar de estar me esforçando para aguentar aquela situação, eu não poderia ajudá-la da forma correta, como um médico faria. Foi então que toda sua podridão veio à tona de uma só vez, qualquer vitória que eu obtivesse era motivo para que ela afundasse ainda mais, como se fosse minha a culpa de ela também não ter sucesso profissional, um namorado apaixonado, amigos confiáveis ou uma família sempre presente. Percebi que eu tinha tocado a ferida: ela sabia que estava doente, mas não admitia que ninguém mais soubesse disso. Mas não podemos ajudar quem não assume que precisa de ajuda, então me afastei definitivamente e continuei realizando meus projetos, vivendo minha vidinha pacata porém feliz. Uma pena, a situação só piorou, até que ela chegou a pensar em suicídio e, quando eu soube (porque o mundo é pequeno), já não era mais capaz de guardar rancor, tamanha era a minha dó.

Felizmente essa pessoa acordou a tempo, ainda que muitos anos após a hora certa, e aceitou a ajuda da qual necessitava. Descobrir que é doente mental certamente não foi fácil, mas ter de conviver com si mesma nessa condição até provocar a própria morte sem dúvida seria muito mais difícil. Hoje, pelo que sei, ela está medicada e sua doença não tem cura, mas ao menos ela se permitiu ter a chance de controlá-la. Se eu pretendo me aproximar dela novamente? Desculpe, mas não. Apesar de a minha mente ser sã, eu não tenho estrutura psicológica para lidar com alguém que vai de um extremo a outro em minutos e atropela quem estiver no meio do caminho, sendo que se um dia houve algum vínculo entre nós ele foi baseado apenas na pena que eu sinto dela. Algumas pessoas são difíceis de se amar, mas isso não quer dizer que não mereçam a felicidade.

Portanto, mesmo quando preferimos manter distância de pessoas infelizes, devemos manter longe também quaisquer sentimentos de raiva, mágoa ou algo do tipo, porque nutrir sentimentos assim apenas faz com que corramos o risco de nos afastar da nossa própria felicidade.

 
 
© Beta de Felippe
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jan
1
Dois mil e nove

Porque um feliz Ano Novo não basta, desejo-o feliz até mesmo quando velho.

 
 
© Beta de Felippe
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